quinta-feira, julho 06, 2006

Dias Martins (1954) = Maria José Dias Martins, Etnografia, Linguagem e Folclore de uma pequena região da Beira Baixa (Póvoa da Atalaia, Alcongosta, T

Oiçam uma interpretaçao


A Gulbenkian editou o Vol. IV de "Romanceiro Português da tradição Oral Moderna", versões publicadas entre 1828 e 1960, organização e fixação de Perre Feré, que reproduz algumas recolhas de Dias Martins (1954) = Maria José Dias Martins, Etnografia, Linguagem e Folclore de uma pequena região da Beira Baixa (Póvoa da Atalaia, Alcongosta, Tinalhas e Sobral do Campo), Tese de Licenciatura, Lisboa, Faculdade de Letras, 1954. Como esta publicação só se encontra disponível na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por se tratar de uma Tese de Licenciatura, não publicada editorialmente, a divulgação de algumas das suas recolhas, por esta via, é de enaltecer.

Reproduzo dois ramances recolhidos pela Maria José Dias Martins.

1406.
Versão de Alcongosta (concelho do Fundão), distrito de Castelo Branco. Recolhida por Maria José Dias Martins. Editada por Dias Martins (1954) 277-280 [Galhoz (1987) 486-487].
- Mal hajas tu, ó mulher, mais a tua geração,

2 sete filhas que tu tiveste sem nenhuma ser varão. Vem de lá a mais nova: - Eu vou a servir de capitão.
4 - Tendes os olhos bem fagueiros, filha, a conhecer-te vão.
- Quando passar pelo hombre eu os deitarei ao chão.
6 - Tendes os peitos bem belos, filha, a conhecer-te vão.
- Meu pai, dê-me uma toalha que eu os cingo ao coração.
8 - Tendes o passo delicado, filha, a conhecer-te vão.
- Quando passar pelo hombre eu darei passo de ganhão.
10 - Ó minha mãe, que eu morro do fundo do coração, os olhos de Leonardo são de mulher, homem não.
12 - Espromenta-a tu, ó meu filho, para contigo ir enfeirar, se ela for uma mulher às fitas se há-de agradar.
14 - Oh, que armas tão adagas para hombre guerrear, oh, que fitas para manas, quem nas pudera mandar!
16 - O minha mãe, que me morro do fundo do coração, os olhos de Leonardo são de mulher, homem não.
18 - Espromenta-a tu, ó meu filho, para contigo ir jantar, se ela for mulher ao baixo se há-de sintar.
20 - Oh, que cadeiras tão baixas para hombre se assintar, ponho mais o meu capote para mais alto ficar.
22 - Ó minha mãe, que me morro do fundo do coração, os olhos de Leonardo são de mulher, homem não.
24 - Espromenta-a tu, ó meu filho, para contigo ir nadar, se ela for uma mulher de ti se há-de converdar.
26 - O minha mãe, que me morro do fundo do coração, os olhos de Leonardo são de mulher, homem não.
28 - Espromenta-a tu, ó meu filho, para contigo vir dormir, se ela for uma mulher não se há-de querer despir.
30 - Eu, quando saí de casa, eu fiz um juramento,
que nunca me havia de despir durante o meu tempo.
32 Carta me vêm do céu, cartas me estão a chegar,
o meu pai já morreu, minha mãe está a acabar.


34 Se me quiserem perguntar, a casa do meu pai vão falar.
- Menina que está no meio dê o ponto miudinho,
36`inda espero de romper, das suas mãos, num colarinho.

Omitimos a seguinte didascália: entre 25 e 26 Leonardo disse que não podia nadar porque lhe doíam os dentes.


10 lá no fim de nove meses, a igreja retinia;
abriram a sepultura, acharam a mulher viva,
12 acharam a mulher viva, c' uma criança nascida.
Os anjos a baptizaram, a Virgem era a madrinha; 14 quem a tinha nos seus braços era Santa Caterina.
- Vejam aqui, ó meus manos, nos passos em que eu andava; 16 quem serve a Deus e à Virgem sempre leva boa paga.
Omitimos o refrão Ora valha-me Deus mai' la Virgem Sagrada! Variante de Diogo Correia (1953): 5b. omite o.
Versão de Póvoa de Atalaia (concelho de Fundão), distrito de Castelo Branco. Recolhida por Maria José Dias Martins. Editada por Dias Martins (1954) 282-284 [Galhoz (1988) 813].

- Venho da Virgem da Lapa mais valente que cansada; 2 se eu tivera companhia ainda para lá tornava
agora, com a roquinha à cintura, a cestinha à ilharga. 4 Em cima, naquela serra, está uma linda ermida onde vai uma devota todos os dias ouvir missa.
- Dissestem, ó meu marido, que eu andava namorada, que eu andava namorada com o sançardote da ermida.
8 - Confessa-te, ó mulher minha, que hoje mato-te, tiro-te a vida.
- Se me matares, meu marido, vai-me enterrar à ermida, 10 [ ] aos pés de Santa Cat'rina.
Lá ao fim dos nove meses um lindo chorar ouviam, 12 vê-los dentro, vê-]os fora, sem saberem o que seria.
Foram abrir a sepultura, encontraram a mulher viva 14 [ ] com uma criança nascida;
os anjos a baptizavam, a Virgem era a madrinha;
16 quem a tinha em seus braços era a Santa Zabelinha;
quem lhe deitava a água benta era a Santa Catarina.
18 - Vês aqui, ó meu marido, os passos em que eu andava?

Omitimos o refrão Ora valha-me Deus, mais a Virgem Sagrada!, entre os vv. 1 e 2, 2 e 3, 3 e 4, 5 e 6, 6 e 7, 7 e 8, 12 e 13, 14 e 15, 15 e 16, 16 e 17, 17 e 18 e depois de 18.
6
Dias Martins (1954) = Maria José Dias Martins, Etnografia, Linguagem e Folclore de uma pequena região da Beira Baixa (Póvoa da Atalaia, Alcongosta, Tinalhas e Sobral do Campo), Tese de Licenciatura, Lisboa, Faculdade de Letras, 1954.

3 comentários:

José Antonio González Salgado disse...

¿Se puede conseguir de alguna forma la monografía de Dias Martins? ¿Se puede consultar en alguna biblioteca portuguesa? Muito obrigado. José Antonio

José Antonio González Salgado disse...

Perdón, no me había dado cuenta de que la respuesta a mi pregunta se encuentra en el texto del artículo.

asp disse...

A obra corresponde a uma tese de licenciatura, na Faculdade de Letras de Lisboa. Na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, encontra a obra. Contactando o bibliotecário, talvez consiga o empréstimo ou então fotocópias. O livro que cito, que transcreve Dias Martins, está disponível no mercado e é editado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Se puder ajudá-lo, em mais alguma coisa, diga, por favor. Se tem interesse ou está a investigar o Romanceiro, poderei indica-lhe algumas referências, relativamente à Beira Baixa. Obrigado pelo seu interess