quarta-feira, dezembro 21, 2005

Manuel Antunes-destacado beirão

Manuel Antunes, um dos mais brilhantes intelectuais portugueses do século XX, beirão nascido na Sertã, director durante décadas da Revista Brotéria, foi recentemenente alvo de uma justa homenagem. Recorda-se que a Revista Brotéria nasceu na Beira, no Colégio de S.Fiel e foi, até agora, a Revista editada na Beira Interior com maior reconhecimento científico. Nem agora, com a UBI e os Politécnicos, se edita uma revista, com o mesmo reconhecimento que a Brotéria, editada em S. Fiel teve.




PÚBLICO - EDIÇÃO IMPRESSA - CULTURA

Director: José Manuel Fernandes
Directores-adjuntos: Nuno Pacheco e Manuel Carvalho
POL nº 5747 | Segunda, 19 de Dezembro de 2005

Manuel Antunes O padre que lia Homero e Marx
António Marujo

Congresso sobre padre Manuel Antunes revelou personalidade que marcou o século XX português. Um homem que escolheu "com o coração"

A "projecção" da herança intelectual do padre jesuíta Manuel Antunes, que foi professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, "começa agora", disse ao PÚBLICO Arnaldo Espírito Santo, vice-presidente do conselho directivo daquela faculdade e um dos principais responsáveis pelo congresso internacional que, durante três dias, evocou a figura de Manuel Antunes.
Em Lisboa (quinta e sexta) e na Sertã (sábado), terra onde nasceu o professor universitário, 60 especialistas e 300 participantes debateram a vida e o pensamento de Manuel Antunes. Memórias, reconhecimento de um pensamento único, ideias e temas tratados pelo padre jesuíta, passaram pelo congresso.
Algumas constantes marcaram muitas intervenções: a raridade do pensamento e da vasta cultura de Manuel Antunes no século XX português; a actualidade e universalidade dos seus escritos e uma mensagem que ultrapassa o seu tempo; a figura humana de "conciliador nato, mas não eclético", na expressão de Eduardo Lourenço; a opção clara pela democracia e pela justiça social.
Porque é que uma obra assim esteve quase ignorada durante duas décadas, desde a sua morte, em 1985? A dispersão dos textos de Manuel Antunes impossibilitou a Faculdade de Letras e a Companhia de Jesus, suas herdeiras naturais, de tornar visível o seu pensamento, admite Arnaldo Espírito Santo.

"O mais cultivado
dos críticos literários"
Leitor dos clássicos, Homero era o seu preferido - para não falar da Bíblia, primeira referência de vida. Mas a vasta cultura levava-o a ler também "autores católicos, protestantes, marxistas, existencialistas", como recordou Arnaldo Espírito Santo. Num tempo de proibições políticas, Manuel Antunes escrevia sobre marxismo, China ou União Soviética. A cultura de Manuel Antunes era de tal modo vasta que o professor tanto se referia ao logos do evangelho de S. João, como Virgílio, ou às aventuras de Tarzan e Robinson Crusoé, acrescentou Arnaldo Espírito Santo, na intervenção que fez no congresso.
João Bénard da Costa, director da Cinemateca, refere-se a Manuel Antunes como "o mais cultivado e o mais criador dos críticos literários". Recorda-se de ter ido falar com Manuel Antunes sobre cinema e ter saído "esmagado" da conversa em que o jesuíta lhe citara autores, edições e traduções, de memória.
"É inesgotável a lista das suas paixões, como é inesgotável a sua erudição", dizia Bénard da Costa, que ontem o evocou, na sua coluna de opinião no PÚBLICO. Medeiros Ferreira recordou que, um dia, passou a sebenta do seu professor ao então capitão Ernesto Melo Antunes. "Li uma sebenta que me encantou: a do padre Manuel Antunes", diria o militar muito mais tarde, pouco tempo antes de morrer, na entrevista a Manuela Cruzeiro, editada em livro.
Apesar da sua erudição, "Manuel Antunes nunca privilegiou o aspecto apologético das suas profundas convicções religiosas e metafísicas", disse Eduardo Lourenço, na intervenção escrita que enviou ao congresso (motivos de última hora impediram-no de estar presente, tal como ao filósofo Edgar Morin). O ensaísta acrescentou: "A sua escolha de vida e de pensamento foi essa, da ordem do coração."



PÚBLICO - EDIÇÃO IMPRESSA - CULTURA

Director: José Manuel Fernandes
Directores-adjuntos: Nuno Pacheco e Manuel Carvalho
POL nº 5749 | Segunda, 19 de Dezembro de 2005

Mais de 150 pseudónimos, muitos para fugir à censura

Além de professor, Manuel Antunes destacou-se também enquanto director da revista Brotéria, dos jesuítas. Aqui escreveu centenas de artigos de crítica literária, cultura, teologia, política, filosofia, entre outras áreas. Muitas vezes com pseudónimo - mais de 150 diferentes estão já referenciados. Fazia-o para evitar a censura do Estado Novo, que não o via com bons olhos, ou para não ter que assinar um número inteiro da revista com o seu nome, já que por vezes falhavam os colaboradores. Manuel Antunes leccionou em Letras entre 1957 e 1983. Foi convidado para a faculdade por Vitorino Nemésio e dava aulas de História da Cultura Clássica para mais de 400 alunos, com o anfiteatro um completamente cheio. Entre os mais de 17 mil estudantes que passaram pelas suas aulas, estiveram pessoas tão diversas como Medeiros Ferreira, Maria do Céu Guerra, José Barata Moura, Matilde Sousa Franco, Luís Miguel Cintra, Almeida Faria, Fernando Mascarenhas ou Maria João Seixas. Quando foi Presidente da República, Ramalho Eanes chamou-o para seu conselheiro.

3 comentários:

Idanhense disse...

Bom Natal e feliz Ano Novo, são os votos do

Joaquim Baptista

asp disse...

Retribuo os votos de Boas Festas e formulo o desejo de que 2006 seja rico em polémicas, que contribuam para a afirmação cultural da Beira Interior.

Aquiles Pinto

outro olhar disse...

Bom Natal e um 2006 cheio de polémicas.