quarta-feira, outubro 20, 2004

As Guitarras de Gilberto Grácio

A revista de Oeiras publicou, recentemente, um trabalho muito interessante sobre Gilberto Grácio, notável Guitarrista Luthier, que apresento como contraponto ao que é indispensável fazermos, relativamente à viola beiroa. A propósito não haverá na Beira Interior jovens dispostos e disponiveis para aprenderem com Mestre Grácio a arte de construir instrumentos de cordas? Em particular as Câmaras de Castelo Branco, Idanha ou Penamacor não estarão disponiveís para garantir Bolsas de estudo a jovens que queiram dedicar-se à construção de violas beiroas, garantido assim a continuidade de uma tradição cultural e revitalizando desta forma a reintrodução deste instrumento musical único? Não valerá a pena utilizar alguns recursos para garantir que este instrumento típico da zona leste de Castelo Branco, no dizer de Ernesto Veiga de Oliveira, se oiça de novo nas aldeias vilas e cidades da Beira Interior. Mestre Grácio está disponível para ensinar a arte de construção de instrumentos de cordas, faltam aprendizes da Beira Interior. Venham eles, com amor e desejo de contribuírem para que não desapareça, definitivamente, a viola beiroa.

Aqui vai o artigo...... Mais tarde colocarei ficheiros sonoros para apreciarem os sons do guitarrão, construído por Mestre Grácio, para que Carlos Paredes acompanha a declamação de poemas de Manuel Alegre, por si próprio....

in:Oeiras Municipal, nº 82, Setembro de 2004

vida dedicada à música - Mestre Gilberto Grácio

Texto: Ana Teresa Silva
Ouvir o "Despertar" de Carlos Paredes, é também sentir o despertar de muitas emoções. Como muita gente chegou a sentir, a guitarra dele falava, e de forma tão eloquente, que eu compreendo o orgulho do Mestre Grácio, Gilberto Marques Grácio de seu nome, ao poder dizer "aquela é a minha filha"!

Mestre Grácio Luthier tem posto no mundo muitas filhas que "falam" divinamente pelas mãos de artistas. Guitarras, violas e muitos outros instrumentos têm feito a maravilha de muita gente e temo-las visto brilhar junto de grandes nomes da música portuguesa. Gilberto, de 68 anos, é o último dos "Grácios" a construir instrumen
tos musicais. Uma arte iniciada na família por João Pedro Grácio, nascido em 1872. Foram várias gerações de Grácios a revelarem um dom único na construção instrumentos musicais, sendo que agora não há ninguém na família que queira dar continuidade à tradição.

Gilberto disse aos seus filhos o que o seu pai já lhe tinha dito: "Querem ir para a escola ou para a oficina?". A escolha de Gilberto foi a oficina, porque o seu gosto pelos trabalhos manuais já era mais do que manifesto e o seu dom já lhe estava no sangue. Mas os seus filhos preferiram os estudos e, apesar de não conseguir evitar uma certa tristeza, aceitou a sua decisão.
O testemunho está a passá-lo numa Escola em Paço de Arcos. Ele conta a história: "a ideia da escola do curso tiveram-na um advogado, um guitarrista e um fadista. Queriam fazer uma escola de instrumentos populares portugueses e, estava eu num jantar de um grande guitarrista, quando eles me perguntaram se eu não me importava de ir supervisionar uma ou duas vezes por mês. O curso esteve um ano a funcionar - tinha um subsídio do Instituto do Emprego e Formação Profissional - e depois pediram para ficar numa base mais contínua. No início só havia 12 bancadas. Comprei então as ferramentas, numa casa que conheço, mandei vir os materiais de Valência, levei algumas ferra-


mentas e materiais que tinha, mas' acabámos por perder muito tempo
• só fazer uma violas e cavaquinhos. Em Janeiro de 2003 fui chamado à Câmara para propôr uma solução para aquele curso, face à falta de verbas, e eu propus ensinar gratuitamente, levando o meu trabalho para lá, e que os alunos se auto-financiassem, através da venda dos instrumentos que construíssem." E' assim aconteceu. Assinou um protocolo com a Câmara, "que tem dado toda a ajuda", abriu em Setembro de 2003 com seis alunos dos 25 aos 39 anos, que muito aprenderam até ao fim de Junho deste ano. Para além de todo o apoio que a Câmara Municipal de Oeiras tem dado, este atelier de instrumentos musicais espera vir a conseguir mais verbas através do ILE (Iniciativas Locais de Emprego).
Seja de que forma for, em Setembro de 2004, o Mestre Grácio "lá os espera outra vez". E que esta arte não se aprende de um momento para o outro. Para além da vocação
• do jeito, que têm de ser inatos, os verdadeiros pormenores que fazem a diferença só se começam a aprender depois de anos de prática
• estudo. Estes seis alunos são, pois, os fiéis depositários de conhecimentos preciosos que passaram de geração em geração na Família Grácio e que poderão fazer com que este "dom dos Grácios" não se perca para sempre.

Toda a família dedicou-se a construir instrumentos de corda dedilhada, com excepção de um tio que se dedicou a instrumentos de arco,
• Gilberto ainda tem consigo um bandolim construído pelo seu avô em 1897. Conta: "Este bandolim esteve 80 anos sem tocar e depois eu reparei-o e o cliente disse assim "Isto está tão bonito! É mal empregue, porque o meu filho dá cabo disso. 0 Sr. não quer comprar?" E eu disse-lhe que sim, que comprava o rótulo. (ri-se) Já comprei há
quase 30 anos." O rótulo, esse, diz: "Fabricante de guitarras, bandolins, bandoletas, violas francesas, violões, cavaquinhos...".

0 seu pai, João Pedro Grácio Júnior, especializou-se na guitarra portuguesa. "O meu pai seguiu sempre em estudos para fazer evoluir a guitarra portuguesa, tanto a de Coimbra como a de Lisboa, mas mais a de Lisboa no princípio. Eu fazia as violas e o meu pai as guitarras. Depois, o meu pai e o Artur Paredes - há um musicólogo,
José Lúcio, que diz que houve um casamento entre o meu pai e Artur Paredes - é que definiram mais a guitarra modelo de Coimbra. Essa guitarra já se fabricava, mas não com a desenvoltura que se fabrica agora. Depois do falecimento do meu pai, eu comecei também a estudar para dar continuidade à construção de guitarras."

Na verdade, são reconhecidos os frutos da união da Família Paredes com a Família Grácio, na pujança que tem hoje a Guitarra





de Coimbra. Aliás, como o diz o Mestre Gilberto Grácio " foi nesse casamento que a guitarra saiu como é hoje".
A Guitarra Portuguesa tem vários modelos: a de Lisboa, Porto e Coimbra, que diferem na forma e na maneira como são e onde são tocadas. Como nos diz o Mestre "a
guitarra de Coimbra tem mais o feitio de pêra, não é tão redonda, a escala é ligeiramente mais longa, e o braço termina em lágrima. A de Lisboa é mais redonda, mais curta de escala, e termina em caracol". A do Porto tem o acabamento em escultura, uma flor, pessoa ou cabeça de animal. Mestre Gilberto acrescenta: "As guitarras são toca
das de forma diferente. A de Lisboa é o trinadinho, aquele fadinho de Lisboa... A de Coimbra é para fazer serenatas, os arpejos são mais longos, a guitarra é mais toeira". No fundo, a de Coimbra foi construída de forma a servir ambientes mais abertos, pois desde cedo foi usada pelos estudantes universitários que a tocavam nos vários espaços estudantis e nas ruas da cidade. A guitarra de Lisboa é tocada com maior suavidade, pois desde cedo ficou confinada a espaços fechados, como tabernas e casas de Fado.

Mas seja qual for a guitarra portuguesa que sai das mãos de Mestre Grácio, uma coisa é certa: é construída com madeiras nobres, as melhores matérias-primas, e leva qualquer coisa como 180 horas de trabalho, pela minúcia que requer. Mais, o som dessas guitarras é reconhecido pelos especialistas do meio. "Eles dizem que nós Grácios sempre tivemos um timbre de guitarra que até na rádio se ouvia, quando davam programas de guitarradas e fado", diz-me com orgulho. "Nós ouvíamos quais eram ou não eram as guitarras Grácios. Nós tínhamos, e eu ainda tenho, um timbre que é indiscutível, que diferencia, e que vamos esperar que não seja perdido". Acrescenta: " Há três anos fui ao "Discursos para Carlos Paredes", no Gil Vicente, e ali estavam guitarras de muitos construtores, mas a maioria eram minhas. Eu estava na primeira ou segunda fila e quando os ouvia tocar, dizia "aquela não é Grácio, aquela é Grácio", compreende? Isso é que me sensibiliza". Percebo-o bem. São as suas filhas que tocam e ele gosta delas todas, mas quando os mestres as fazem brilhar, o seu construtor brilha com elas. "O Artur Paredes tinha seis guitarras, três minhas e três do meu pai", diz. "O Carlos tinha duas feitas pelo meu pai, uma feita por mim e herdou as do pai. Agora o seu espólio está todo marcado, já que até Fala recentemente, esteve 11 anos numa clínica e nunca mais tocou. E pena, porque ele tinha muita coisa para fazer e muitas guitarras para tocar". Continua: " Eu e o Carlos tínhamos uma grande intimidade. Ficávamos a conversar aqui até à uma ou duas da manhã. Chegámos a estudar entre nós os dois como fazer o instrumento que ele realmente desejava... e que eu também desejava. O que eu fiz na altura, ele tocou pouco nele, há 14, 15 anos, chamado guitarrão. Acompanhou a Cecília de Melo, o Manuel Alegre nuns poemas...". E mostra-me um instrumento, acrescentando " por acaso eu tenho aqui o instrumento que fiz para o Carlos Paredes. Depois de experimentarmos, e falarmos, já me veio à ideia outras soluções - não vai ficar com o nome de guitarra, isso não vai - e queria lançá-lo brevemente, talvez no princípio do ano. Não é para fado, mas para tocar certa música de Vivaldi. É uma guitarra para o futuro." Ele passa-me para as mãos. Eu toco-lhe a medo, como quando se pega num bebé muito pequenino, com medo de poder deixar cair tal preciosidade e fico a imaginar o som dessa guitarra do futuro, do século XXII como diz o Mestre Grácio.

Já lá vão 56 anos dedicados à construção de instrumentos. Foi agraciado, em Outubro de 2002, com o Grau de Comendador da Ordem do Mérito com que foi distinguido por sua Excelência o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, e este ano foi-lhe atribuída, pela Câmara Municipal de Oeiras, a Medalha de Mérito Municipal.

A primeira vez que ouviu tocar o fado, levado pelo braço do seu pai, tinha apenas 9 anos e nunca mais se esqueceu. "Fiquei marcado". Foi numa casa particular que ouviu o
Conde de Sabrosa, marido de D. Teresa de Noronha, de quem ficou grande amigo.

É que falar de Guitarra Portuguesa é também falar do Fado. "A Guitarra é para o Fado um instrumento dialogante, dando resposta e continuidade ao cantor nos momentos em que este esteja calado. É, também por isso, instrumento acompanhante que desafia o cantor pois, no verdadeiro Fado, a Guitarra também deve cantar." A Guitarra acompanha o sentir da alma portuguesa.

E é para preservar essa alma, que o Conselho do Fado, do qual o Mestre Grácio faz parte, com personalidades como Carlos do Carmo, Vicente da Câmara ou António Chainho, está a avançar com a candidatura do Fado Tradicional à classificação de Obra Prima do Património Oral e Imaterial da Humanidade, da UNESCO. Uma distinção criada "para distinguir os exemplos mais notáveis de espaços culturais ou formas de expressão popular e tra
dicional tais como as línguas, a literatura oral, a música, a dança, os jogos, a mitologia, rituais, costumes, artesanato, arquitectura e outras artes, bem como formas tradicionais de comunicação e informação." Marisa e Carlos do Carmo são os embaixadores dessa candidatura.

Quanto a resultados só saberemos mais tarde. O certo é que é importante não perder os conhecimentos que, desde os 12 anos, o Mestre Gilberto Grácio tem vindo a acumular. Esperemos que os seus alunos, já que ele é o último dos Grácios, recebam e saibam preservar (e passar eles também) o testemunho.

É que construir guitarras que "brilham" nas mãos de artistas é mesmo para Mestres. E as guitarras portuguesas são amadas até do outro lado do mundo, na Ilha do Sol Nascente, pois o Imperador do Japão foi ensinado por António Chaínho aquando das suas visitas ao Oriente, dado o seu fascínio por este instrumento genuinamente português. 0.112.

1 comentário:

jorge disse...

ola boa noite.
sou da covilha, tenho 21 anos e gostaria imenso de aprendes com quem sabe a construção de guitarras portuguesas. sei que é um processo que demora algum tempo mas gostaria. se me puderem ajudar contactem-me por email: jorgemendes333@sapo.pt
cumprimentos